Ela só quer água
Ela só quer água.
Não um carro.
Não um apartamento.
Não um cargo público.
Tampouco... uma herança milionária.
ÁGUA!!!
São seis garrafas para, pelo menos, seis dias. Correspondendo a 1 fardo de água mineral.
Parece uma missão simples, eu sei. Mas como trata-se de Ludmila Olivieri Simões o simples torna-se extraordinariamente complexo.
E antes que vocês, caros leitores se atentem às Drogarias, eu já antecipo: Não consigo pensar em comprar via entregas online porque aí sim a Saga vira facilmente uma Tragédia Grega, em no mínimo, 5 atos.
Então vamos nos ater a uma simples "tragédia brasileira:"
Primeira drogaria: Manda um WhatsApp:
Nada.
Segunda drogaria: Zap:
Nada.
Terceira drogaria: Z..
Nada.
Ela só quer água.
A essa altura, a protagonista já havia percorrido mais farmácias pelo celular do que um estudante de Direito percorre páginas do Vade Mecum.
Mas a água continuava distante.
Ela só quer água...
Eis que... finalmente, uma drogaria atende.
Pedido realizado.
Vitória?
Claro que não.
Caso fosse, não estaria aqui para narrar da perspectiva de uma observadora do mundo como dito em meu novo Blog, possivelmente "Abandonável".
A saga estava apenas começando.
O entregador chega.
Existe um QR Code.
Existe um interfone.
Existem, aliás, vários interfones.
Talvez existam interfones demais.
O entregador olha para o sistema.
O sistema olha para o entregador.
Nenhum dos dois se entende.
Ela só quer água.
O entregador volta para a loja.
A loja liga.
Ou não liga.
Porque existe o bloqueador de spam.
E existe a possibilidade de que a ligação tenha acontecido numa dimensão paralela, acessível apenas aos entregadores e aos operadores de telemarketing.
Ela só quer água.
Prints são enviados.
Explicações são trocadas.
A investigação avança.
Conclusão oficial:
O entregador realmente tentou.
A cliente realmente tentou.
A tecnologia realmente tentou.
Ninguém conseguiu.
Ela só quer água.
Enquanto isso, surge uma nova proposta.
Um elevador de carga para os fardos.
Uma ideia excelente.
Talvez para 2032.
Talvez para depois do portão.
Talvez para depois da paz mundial.
Mas certamente antes do teletransporte.
Ela só quer água.
No fim das contas, a solução mais sofisticada da história foi a mais antiga de todas.
Dar uma caixinha para o entregador.
Olhar nos olhos.
Pedir por favor.
E torcer para que ele tenha coragem de enfrentar os três lances de escada da Vila.
Porque, às vezes, a tecnologia falha.
Os aplicativos falham.
Os interfones falham.
Os QR Codes falham.
Mas a boa vontade ainda funciona.
Ou melhor.
Continua.
Porque amanhã provavelmente vai faltar água de novo.

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