O Poste estava certo
Sempre fui a menina que passou a vida ocupando o centro da roda: organizando, representando, cuidando, fazendo pontes e mantendo tudo funcionando. Aos 16 anos, era imbatível em tais funções. Presidente do grêmio, a “descolada” do teatro, e boa parte das decisões estudantis passavam por mim.
Estudava em um Colégio de padres tradicional da zona sul do Rio de Janeiro, que tinha um pensamento crítico e democrata. Todos eram ouvidos. Todos participavam e eu fazia questão de fazer parte do centro dos eventos.
Eu era basicamente a “Oradora do colégio".
Representante de turma por vários anos consecutivos.
Fazíamos em dupla a representação de classe. Então era sempre eu e mais uma pessoa, votados cuidadosamente pela classe que sempre fazia coro: “Ludmila, Ludmilaaaa!!!”
Confesso que ficava nervosa com o coro mas o que me tranquilizava era o fato de ter mais uma pessoa para dividir a função comigo.
Fui presidente do Grêmio estudantil por anos e eu “tentava” organizar aquela salinha, localizada no terceiro andar, na qual eu era a responsável por ter a chave, mas nunca conseguia organizar e acabava virando uma verdadeira bagunça.
Mas tal função tinha vantagem. Uma delas era ter o “Free pass” de andar de elevador.
Isso acontecia porque eu conversava com coordenadores, diretores, psicóloga e coordenação pedagógica. Eu era, literalmente, a ponte entre alunos e adultos em suas funções.
Aliás, caros leitores, faço essa função desde que me entendo por gente. Um pouco antes disso, trabalhava como transcritora de minha mãe com seus textos de congressos, Piaget seguidos de textos com letras difíceis de decifrar.
Vinham fitas cassete que deveriam ser passadas para aquele computador com monitor de tubo, para fazer os impressos dos materiais. Mas eu fazia questão de deixar tudo extremamente limpo e catalogado porque eu ganhava por página, então assim, poderia criar um “padrão” de cobrança.
Além disso, meu primeiro trabalho informal trata-se de um perfeito “Trava-língua”. Sim, eu fazia a cobrança telefônica dos Associados da Sociedade Brasileira de Psicomotricidade. Então eu usava o telefone fixo e ligava para os associados, cobrando os pagamentos e dizia o seguinte:
Olá, bom dia! Aqui é a Ludmila Olivieri, filha da Ana Maria Olivieri, presidente da Sociedade Brasileira de Psicomotricidade.
E geralmente eu tinha que deixar recado. O mais explicativo possível, já que era uma época que não havia celular e só usávamos o fixo e pasmem, fax…
Foi assim minha vida infantil e adolescente até que veio a reprovação. A segunda. Sim. Existia uma regra para não ser “jubilada” da escola. Você não podia repetir o Ensino Fundamental ou Ensino Médio por duas vezes.
No fundamental, era boa aluna. Não excelente. Notas medianas porque ficava apavorada em fazer prova. Sempre tive a impressão que sabia menos que meus colegas. Estudava e passava. Mas quando cheguei ao Ensino Médio veio o aparecimento da “erva".
Foi aí que fiquei literalmente apaixonada nela. Um verdadeiro caso de amor que me fez deixar o colégio e deixar de ser “a mais mais”.
A consequência disso foram seis meses literalmente de cama. Dormindo. Parada.
Meu pai me visitava, pelo menos, três vezes por semana e via ali uma situação emergencial. Olhava para minha mãe com olhar fulminante e dizia:
“Ana, remédio!”
Minha mãe conseguiu um excelente médico. Porém seu amigo de longa data. Fui atendida em seu consultório no Leblon, voltei com algumas amostras e a posologia devidamente aprovada por meu pai. De farmácia, ele entendia. Seu instinto era forte.
A receita estava certa. O cuidado existia. Mas a vida não era uma prova de múltipla escolha.
Atrelado a uma terapia que revelou, infelizmente, um padrão anormal.
Eu possuía toda a teatralidade que queria com uma linha terapêutica expressiva/corporal. Fazia exercícios com emoções, corpo e objetos, algo que combinava com aquela atriz adormecida.
Em determinada sessão, minha psicóloga revela que perdeu a mãe jovem, e em outra sessão, num momento de raiva, eu menciono isso.
- Ela chora.
Nesse momento então, a menina que passou a vida sendo competente em resolver o problema dos outros não conseguiu aceitar ocupar o lugar de quem precisava ser cuidada.
Sim, fiquei sem psicóloga, mas tinha meus amigos queridos que me visitavam com frequência:
Clarinha, sempre me trazendo alegria com seus lindos olhos fulminantes e abraços calorosos. A única com a capacidade de me levar à praia.
Igor, com todo seu amor dedicado a mim como aquele irmão insistente que não deixa a peteca cair e me o único a conseguir me tirar risadas
E Maria, com seus cabelos cor de fogo, ruivinha natural, sardas e como boa sagitariana, trazendo alegria no caminhar.
Esse foi o momento em que me tornei, ou que senti que me tornei, a menina que sempre segurava a roda descobrindo que a roda também podia segurá-la.
Depois das férias, a volta às aulas não me animava, mas com o tempo, consegui seguir em frente.
Para ir à aula, bastava atravessar a rua. A escola ficava situada à Rua Macedo Sobrinho, 71 e minha residência à época era no número 38.
No começo, eu ia à aula de com aparência de “pijama”. Não havia uniforme mas ia de moletom com a própria roupa que dormia, só precisava atravessar a rua.
E ficava à espreita porque sabia que ao lado da Escola possuía um Estúdio de gravação com os principais nomes da MPB. Então, como uma boa carioca, ver Marisa Monte, Djavan, e seus óculos escuros me causavam uma mistura de fascínio e respeito. Sim, olhava de longe, mas gostava de saber que no mesmo quadrado tudo se convergia.
A verdade é que a distância física era pequena.
Mas a distância emocional era enorme.
Depois de certo tempo, a minha “nova persona” começa a se moldar: uma nova turma, novos amigos e mais uma vez a fila da tarot se formava..
Voltei a criar conexões. O Humaitá possuía à época uma cena boêmia muito forte. Tinha a Sinuca do Humaitá, a Cobal e os bares sem fim.
E eu era "A mais rica da turma”, mesmo que o dinheiro fosse do meu pai.
As contas ficavam abertas, e meu pai ia de bar em bar pagando no “Diners Club" enquanto me dava bronca no carro.
Mas o circuito com meus amigos era sempre o mesmo: Primeiro íamos a Cobal do Humaitá famosa por seu chopp de longas tulipas. Depois íamos a sinuca e ficávamos jogando por horas a fio. Por fim, encerrávamos no bar ao lado da Cobal.
Um belo dia, desses de bebedeira sem fim, minha irmã me surpreende com uma nova informação, que gera uma briga acalorada, uma briga sem fim!
Até hoje eu não lembro por que brigamos. O álcool e a erva me fizeram deletar essa parte da fita. Mas lembro perfeitamente do poste.
Ele não tinha absolutamente nada a ver com a história. E ainda assim, foi quem apanhou.
Chegadas e Partidas
Sobre chegadas e partidas Sobre novas perspectivas Um novo olhar, uma nova vida Assim se vai e assim se fica Fica a louça, fica louca Mas sempre ali Para que servem dois corpos? Dois copos... Corpos que pulsam Como um cigarro acesso Como fumaça incandescente Com hora e sem endereço Com olhos indecentes Com a voz sussurante Com pressa para chegar Sem pressa para sair Mas com o desejo de voltar Inicio, meio, Inicio
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