O Médico Paciente
Existem médicos que tratam doenças e médicos que acompanham vidas.
Existem, aliás, médicos para quase tudo:
Tem o cardiologista, que cuida do coração. O neurologista, que investiga a complexidade da cabeça. O ortopedista, que entende dos ossos e das articulações. O ginecologista, o gastroenterologista, o endocrinologista, o dermatologista, o oftalmologista...
A medicina moderna foi ficando cada vez mais especializada. Hoje existe um profissional capaz de olhar praticamente cada pedaço do nosso corpo com uma lupa própria.
Mas existe uma figura que, curiosamente, parece cada vez mais rara: o clínico geral.
Talvez porque ele seja justamente o médico que não olha apenas para uma peça da máquina. Ele olha para a máquina inteira.
Porque, às vezes, a gente não tem uma dor específica. O corpo inteiro resolve fazer uma reunião de condomínio sem avisar. Uma coisa mistura com a outra, um sintoma conversa com outro, e fica difícil saber onde termina o físico e começa o resto da história.
É aí que entra o clínico geral: o médico que lembra que antes de sermos órgãos, exames e sintomas, somos pessoas.
Dr Sidney trata-se desse tipo de médico. O clínico. Cada vez mais raro.
Lembro-me da minha primeira consulta aos 21 anos. Ele anotava tudo em seu pequeno caderno. Possuía uma curiosidade vasta que cada consulta parecia não caber em suas tantas anotações.
Ele escrevia muito mais do que uma simples receita. Parecia estar escrevendo uma biografia ou um romance.
Como nossa relação estende-se até hoje, em meus 30 e poucos, o caderno dava lugar ao computador. O prontuário passava a ser eletrônico. Pode parecer que com isso, tudo ficaria mais frio e automático.
Mas com a abordagem dele, a tecnologia só mudou o suporte, não mudou a relação. De médico e paciente.
A memória definitivamente não está no computador. Porque depois de vinte anos, muitas vezes ele quase não precisa consultar o prontuário. Basta ouvir minha voz. Ele reconhece meus padrões, mudanças de comportamento e pequenos sinais.
O verdadeiro arquivo parece estar na memória construída ao longo do tempo. Ao longo de 20 anos.
Para ser mais específica, recordo-me de um episódio em que liguei para reclamar de uma situação de trabalho e me queixar de dores na coluna.
Telefono para ele e começo a me queixar muito e do nada, no meio do diálogo
- "Doutor... estava na casa de minha amiga e não estou conseguindo passar um café."
Ele me interrompe na hora:
- "Você não está conseguindo passar um café?"
Tive a percepção de que ele não estava ouvindo apenas uma frase. Ele estava reconhecendo um padrão.
- O café nunca foi apenas um café. O diagnóstico também nasce da forma como ele escuta. e ele, imediatamente me pergunta:
- "Mas por que isso te incomodou tanto?"
Depois de tantos anos, ele sabe quais perguntas fazer. O diagnóstico nasce da escuta.
Todavia, eu também o observo. Depois de tantos anos, a observação deixa de ser apenas de um lado.
Certa vez observei um contra baixo em seu consultório e descobri que ele estava aprendendo o instrumento. Achei maravilhoso porque à época fazia videoclipes e achei um excelente hobby. Conversamos brevemente sobre isso, e para ser sincera, nem sei mais se ele segue fazendo música com seus amigos.
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Outra observação foi a percepção de um quadro feito por um paciente na parede. Pequenos detalhes que revelam o ser humano por trás do jaleco.
Certa vez ao telefone, ele comenta que foi entrevistado para um espetáculo em cartaz. Pediu que você lesse o artigo.Foi um pequeno gesto de confiança e carinho. Porque depois de duas décadas, a relação já não cabe apenas na formalidade da consulta.
Mais recentemente fiz uma brincadeira com ele em tom de piada. Sugeri que vou dar um presente: Uma estátua feita manualmente por mim, em argila, com os dizeres: “Santo Dr. Sidney”. Ele reagiu com um emoji de risada. Muito emocional para ele, por sinal. Me fez abrir um sorriso de canto de boca.
Por isso o intitulo de “O médico paciente”
Porque o melhor médico talvez não seja apenas o mais brilhante.
Ele também precisa ser paciente.
Paciente para acompanhar as mesmas histórias em fases diferentes da vida.
Paciente para perceber quando um café deixa de ser apenas um café.
Paciente para entender que nenhuma tecnologia substitui vinte anos de atenção contínua.
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