A CARA DO FRANCISCO

 "Nossa, você é a cara do Francisco."

Essa é a frase que escuto desde sempre. Desde que me entendo por gente.

Mas depois de seu falecimento, em 2001, essa frase vem carregada de saudosismo. Não chega a ser incômodo por se tratar de um elogio carregado de saudade.


Quando encontro Denis, seu grande amigo de IBM Brasil ou mesmo Eduardo Eloy, seu primo de primeiro grau e seu grande fã, vejo sempre o mesmo olhar: “O Francisco deixou sua sementinha”


E o curioso é que eles tem razão.


O que me incomoda, num primeiro momento, é porque em termos de genética, sempre preferi parecer com minha mãe e não meu pai. Mas a semelhança vai além da genética 

Temos características parecidas de como fazemos o supermercado, por exemplo. Sou igual a ele: Entro, pego o que precisa e vou embora.


Já a intelectualidade: leitura, escrita, cultura, me identifico bastante. 


O interesse pela política como forma de compreender o mundo antes de opinar, mesmo porque tínhamos viés bem distintos e exercitávamos bastante o diálogo.


A constante preocupação com a saúde: Ele por herança genética de sua diabetes. Eu, por hipocondria ou mania de farmácia mesmo.


Outra figura paterna que permeia minha vida é meu tio, irmão de minha mãe, e meu padrinho: Baiano, marqueteiro, comunista e apologista a seu cachimbo. 


Talvez eu seja uma mistura do Francisco com o Jonga.


Mas com a “cara do Francisco”


Sobre eles, vou me ater a um episódio que ocorreu em meu batismo.


Sim, caros leitores, me batizei aos 12 anos de idade porque meu pai queria que eu escolhesse minha religião e eu quis fazer catequese. Confesso que muito mais pela festa, encontros e leituras do que efetivamente pela religião.


Hoje em dia, sou da Umbanda e Candomblé, e tenho que admitir, que ele estava certo ao não me batizar bebê. Mas à época o que mais me atraiu na primeira comunhão foi justamente as atividades, as rodas de violão, a ida ao Clube em Mangaratiba…


Lembro de uma grande amiga minha de turma, Carol Peixinho, que era de família kardecista, que não participava das atividades e eu sempre a deixava inteirada de tudo que era feito.

Mas voltando ao episódio do batismo; Meu pai era agnóstico. Compareceu pontualmente, veio direto de seu trabalho com um pé de cada sapato.


Tio Jonga, que era ateu, fazia piada de tudo. Obviamente não na cerimônia. Mas ao terminar, fomos comer no “Mama Rosa” , restaurante italiano próximo ao Colégio. 


Os dois riam de tudo, com suas bebidas. Lembraram do ritual, da homilia, dos Santinhos e riam…  


Minha cara de 12 anos era brava, ficava extremamente envergonhada desses dois fazendo balbúrdia perto de meus amigos, com pais comportados. Mas aos 44 anos, percebo minha similaridade a isso.


Ser a cara de alguém não é só herdar o rosto.


É herdar gestos, manias, medos, inteligência, humor e contradições. E sim, nesse ponto, sou mesmo a “Cara do Francisco”. A Lud de 44 anos é.


Herdei dele o interesse por entender o mundo.


Ele tinha diabetes tipo 1.


Eu tenho exames em dia.


Mesmo assim, vivo de olho no visor do glicosímetro, como se meu pâncreas pudesse esquecer de trabalhar a qualquer momento.


Talvez algumas heranças a gente receba.


Outras, a gente acompanha de perto.


E há aquelas que a gente aprende, todos os dias, a transformar.


Talvez essa seja a maior homenagem que um filho possa fazer ao pai.


Ser a cara dele.


Sem precisar repetir o destino.


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